O MELHOR "CARNAVAL
"
por J.L.
Enquanto a cidade inteira se entrega ao frenesi do carnaval — com batuques que ecoam quarteirões inteiros, plumas voando e corpos pintados de glitter —, ela fecha a porta de casa com um suspiro de alívio. Não é desdém pelo samba nem julgamento aos que dançam até o osso. É só que o seu carnaval tem outro ritmo: o silêncio entre uma risada e outra, o barulho suave de copos sendo enchidos, o estalo seco de uma peça de dominó batendo na mesa.A geladeira v
ira altar de cores. Tem manga madura cortada em cubos dourados, goiaba ainda morninha do quintal, fatias de abacaxi que cheiram a sol, laranjas suculentas e um cacho de uvas que as crianças disputam como se fossem joias. No liquidificador, o som da lâmina triturando gelo, limão e hortelã anuncia o primeiro suco do dia — verde-claro, refrescante, sem açúcar industrial. Ao lado, um pote de castanhas-do-pará e amêndoas torradas espera a mão distraída de quem passa.A mesa da varanda vira quartel-general. O tio mais velho já espalhou as pedras de dominó, alinhando-as com a precisão de quem faz isso desde menino. “É bucho de bode quem fecha primeiro”, provoca, e a mesa explode em risadas e xingamentos carinhosos. Do outro lado do quintal, o futebol improvisado rola com bola murcha e gol feito de chinelo. Gritos de “falta!”, “golllll” e “tá impedido, rapaz!” se misturam ao canto distante de um bem-te-vi que não sabe que é terça-feira gorda.
por J.L.
Enquanto a cidade inteira se entrega ao frenesi do carnaval — com batuques que ecoam quarteirões inteiros, plumas voando e corpos pintados de glitter —, ela fecha a porta de casa com um suspiro de alívio. Não é desdém pelo samba nem julgamento aos que dançam até o osso. É só que o seu carnaval tem outro ritmo: o silêncio entre uma risada e outra, o barulho suave de copos sendo enchidos, o estalo seco de uma peça de dominó batendo na mesa.A geladeira v
ira altar de cores. Tem manga madura cortada em cubos dourados, goiaba ainda morninha do quintal, fatias de abacaxi que cheiram a sol, laranjas suculentas e um cacho de uvas que as crianças disputam como se fossem joias. No liquidificador, o som da lâmina triturando gelo, limão e hortelã anuncia o primeiro suco do dia — verde-claro, refrescante, sem açúcar industrial. Ao lado, um pote de castanhas-do-pará e amêndoas torradas espera a mão distraída de quem passa.A mesa da varanda vira quartel-general. O tio mais velho já espalhou as pedras de dominó, alinhando-as com a precisão de quem faz isso desde menino. “É bucho de bode quem fecha primeiro”, provoca, e a mesa explode em risadas e xingamentos carinhosos. Do outro lado do quintal, o futebol improvisado rola com bola murcha e gol feito de chinelo. Gritos de “falta!”, “golllll” e “tá impedido, rapaz!” se misturam ao canto distante de um bem-te-vi que não sabe que é terça-feira gorda.
As crianças correm descalças, sujas de terra e suco de caju, inventando regras novas para o vôlei com uma bola de meia. Quando cansam, caem no chão ao redor dos adultos e pedem história. A avó começa contando de quando o avô (que já se foi) ganhou dela no dominó usando só a mão esquerda, e dali em diante a roda vira um novelo de memórias: a vez que o primo caiu da mangueira tentando pegar fruta, a enchente que levou o galinheiro inteiro, o dia que o cachorro comeu o peixe assado inteiro da Páscoa.O sol baixa devagar, tingindo tudo de laranja e rosa. Alguém acende a luz da varanda, outra pessoa traz mais suco — agora de maracujá com hortelã —, e o dominó continua. Ninguém fala em bloco, em trio elétrico, em concentração. O carnaval deles é esse: quieto, suado de brincadeira, doce de fruta, salgado de risada.Lá fora, a cidade pulsa. Aqui dentro, o coração pulsa também — mas no compasso lento de quem escolheu a paz como fantasia. E, no fim das contas, talvez seja a folia mais autêntica que existe: a de simplesmente estar junto, sem precisar provar nada a ninguém.Enquanto o resto do mundo grita “Ô lá em casa!”, ela apenas sorri e diz baixinho: “Ô lá em casa mesmo”. E serve mais um copo de suco.


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