​O Drone, o Mosquito e a Promessa da Ciência Silenciosa ​



A tecnologia finalmente encontrou o seu oponente mais irritante — mas será que a resposta para um problema secular é mesmo um robô minúsculo voando pela nossa sala?
​Há algo fascinante na forma como a humanidade escolhe seus grandes desafios tecnológicos. 

Investimos bilhões para explorar Marte, criar inteligências artificiais capazes de escrever como poetas e projetar carros autônomos. No entanto, quando chega a noite e apagamos as luzes, continuam sendo aqueles três miligramas de asas e pernas finas que tiram o nosso sono: o mosquito.
Recentemente, uma startup francesa decidiu encarar esse trauma universal de frente. A proposta parece saída diretamente de um roteiro de ficção científica em miniatura: um pequeno drone, munido de sensores e ondas para identificar a assinatura sonora e o movimento do inseto, encarregado de neutralizar o invasor antes mesmo que ele pouse em nós. É algo grandioso.
É impossível não sentir um certo alento ao ler sobre isso. A promessa de eliminar a picada — e, mais importante, de combater doenças graves como dengue, zika e malária — sem precisar espalhar inseticidas químicos pelo ar ou besuntar a pele com repelentes grudentos é tentadora. A tecnologia, quando mira a nossa dor diária (ou o nosso zumbido diário), ganha contornos de pura poesia prática. Por enquanto estarão sendo usados em mosquitos.
A pergunta que fica no ar
Mas, para além do entusiasmo inicial, a inovação nos faz coçar a cabeça.
​Praticidade vs. Distração: Substituiremos o zumbido irritante do mosquito pelo zumbido mecânico de uma esquadrilha de microdrones patrulhando o quarto?
Escala e Acesso: Uma solução como essa nasce para ser um artigo de luxo em casas abastadas ou conseguirá chegar às regiões vulneráveis onde o mosquito não é apenas uma praga urbana, mas uma ameaça letal à saúde pública?
​Ganhamos uma arma sofisticada na eterna guerra contra o vetor, é verdade. Mas o verdadeiro teste de fogo dessa startup não será apenas provar que seu robô tem boa pontaria no escuro. Será demonstrar que a alta tecnologia pode ser mais simples, acessível e sustentável do que a velha e boa raquete elétrica — ou a simples preservação do nosso ecossistema.
​Até lá, celebramos a audácia da ciência. E torcemos para que as ondas do drone sejam rápidas o suficiente, porque o verão, como bem sabemos, nunca espera.


J.L.

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