A QUEDA DO PODEROSO PASTOR CHAVES
O sol da tarde batia nos vitrais coloridos do grande templo da Herança Paterna, de Nova Alvorada, projetando sombras longas sobre a mesa de mogno da sala da diretoria. Na cabeceira, o Pastor Chaves Milton fitava o vazio. O peso dos seus setenta e oito anos parecia maior naquele dia do que em todas as décadas que dedicara ao ministério.
Chaves não era um homem qualquer. Sua eleição para a presidência da denominação, anos atrás, fora cercada de mistérios e costuras de bastidores que muitos na época chamaram de "estranhas", mas que ele preferia creditar ao destino divino. E, de fato, a obra cresceu. Sob o seu comando, mega templos foram erguidos, missões foram financiadas e as frentes de evangelização se multiplicaram. Claro, ele sabia que nada disso teria acontecido sem as madrugadas de joelhos dobrados do círculo de oração — as fiéis irmãs da igreja eram o verdadeiro motor espiritual daquele lugar. Mas ele achava que era de sua "sabedoria".
O problema é que o poder tem um perfume inebriante.
Com o passar dos anos, o Pastor Chaves acostumou-se com a reverência. Gostava de ver a multidão se calar quando ele entrava no púlpito.
Gostava do carro oficial com motorista, das viagens de primeira classe e da palavra final em todas as decisões financeiras. Sem perceber, a linha tênue entre "servir a Deus" e "servir-se do altar" havia se desfeito. A Palavra, que antes era seu guia, virou ferramenta de retórica para manter o controle. Depois do cargo, ele viajou por dezenas de países, e frequentava caros restaurantes, que antes ele nunca frequentou nem de longe. ele se portava como un mega empresario, e tinha um grande ego. Parecia um executivo da Microsoft ou das empresas de Elon Musk.
Agora, sentindo o sopro da velhice e temendo perder o legado que julgava ser seu, Chaves tentou dar a cartada final. Na última convenção, sugeriu o nome de seu filho, o jovem pastor Laércio Júnior, para sucedê-lo. Diante da resistência silenciosa, tentou manobrar para colocar o neto, um rapaz recém-formado em teologia. Ele queria manter o trono na família.
Foi então que o Presbitério disse basta.
À sua frente, na mesa de mogno, estavam cinco dos mais antigos presbíteros e evangelistas da igreja. Homens de cabelos brancos que testemunharam o início de tudo. O silêncio foi quebrado pelo Presbítero Elias, cuja voz firme ecoou pela sala:
— Pastor Chaves, nós o respeitamos pela história e pelas grandes obras que o Senhor realizou com a graça de Deus e o clamor das nossas irmãs. Mas as coisas chegaram a um limite que não podemos mais tolerar.
Chaves franziu o cenho, a autoridade ferida.
— O que significa isso, irmão Elias? Estamos falando da continuidade da obra!
— Não, pastor. Estamos falando de dinastia — corrigiu Elias, sem piscar. — Cargo na igreja de Cristo não é herança. Não deve passar de pai para filho, nem de avô para neto. Tentar fazer isso é, no mínimo, desonesto com o rebanho e com o Espírito Santo.
Chaves menoscabou, mas o Presbítero Barnabé, o tesoureiro, empurrou uma pasta de documentos pelo centro da mesa.
— Haverá uma eleição legítima no próximo mês, pastor. E as regras mudaram — anunciou Barnabé. — O estatuto foi revisado pelo conselho. Haverá uma limitação severa para o salário do pastor presidente. Os cartões corporativos serão cancelados, os carros de luxo serão vendidos e muitos dos privilégios que o senhor acumulou ao longo dos anos seriam extintos hoje mesmo. A igreja voltará a investir o dízimo no social e nas missões, não em vaidades pessoais.
— Vocês estão se rebelando contra a autoridade ungida! — Chaves alterou a voz, batendo com a mão na mesa, tentando usar o velho terror espiritual que sempre funcionava.
Elias olhou para ele com uma mistura de tristeza e firmeza.
— Não há rebelião aqui, pastor. Há correção. O que o senhor vem fazendo, esse coronelismo espiritual, essa fome de poder... nada disso está de acordo com a Palavra de Deus. O senhor se esqueceu de que o maior no Reino é aquele que serve. E, além do mais, na Nova Aliança, todos somos ungidos, como diz o apóstolo João em sua primeira carta, capítulo 2 e versículo vinte. Temos a unção do Santo, pois todos temos o Espírito Santo em nós, diz a Palavra de Deus.
O Pastor Chaves Milton olhou para os cinco homens. Procurou neles algum sinal de hesitação, mas só encontrou a rocha da convicção. Pela primeira vez em trinta anos, ele percebeu que o poder que pensava ter era apenas uma ilusão que estava se desfazendo no ar. O império familiar que tentara construir havia desmoronado diante da soberania da própria igreja que ele prometera guiar.
J.L.

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