O Resgate das Cores e o Ópio da Bola: O Verde e Amarelo entre a Política e o Gramado
As ruas do Brasil estão voltando a ganhar cor. Quem caminha pelos bairros já começa a notar um cenário que parecia esquecido no fundo de algum baú da memória coletiva: o retorno das bandeirolas estendidas de poste a poste, os desenhos da bandeira nacional timidamente pintados no asfalto e o comércio ambulante inundado por camisas verde e amarelas.
Por anos, essas cores carregaram um peso diferente. Houve um período em que o manto nacional foi guardado no armário por uns, e transformado em uniforme de combate por outros. A ascensão da direita política no país resgatou esses símbolos, trazendo-os de volta ao cotidiano de forma intensa e polarizada. O verde e o amarelo deixaram de ser apenas futebol; viraram manifesto.
Mas o tempo passa, as engrenagens giram, e um fenômeno interessante começa a se desenhar no horizonte. O amor à seleção brasileira dá sinais de que está voltando ao seu leito original.
A Flor de Lótus em Meio ao Caos
Assistir a esse retorno é presenciar uma espécie de transe coletivo, especialmente quando contrastado com o cenário atual. Vivemos submersos em uma trama política macabra, um roteiro diário de escândalos, polarização extrema, disputas de narrativa e uma sensação perene de desgaste social. A engrenagem do poder é fria e, muitas vezes, desalentadora.
É justamente aí que o futebol reassume seu papel místico na cultura brasileira. Esse renascer do amor pela seleção funciona quase como os goles da flor de lótus da mitologia. Na Odisseia de Homero, aqueles que consumiam a flor de lótus esqueciam de suas pátrias, de seus problemas e do desejo de voltar para casa; entravam em um estado de pacífica amnésia e contentamento.
O futebol, quando aterrissa em um país cindido, opera como essa flor mitológica. Ele oferece um anestésico voluntário. E o povo esquece as agruras.
O Direito ao Esquecimento Temporário
Quando a bola rola, o verde e o amarelo colados no asfalto ou costurados no peito purgam, ainda que por apenas noventa minutos, o seu significado político recente. A camisa deixa de ser uma declaração de voto e volta a ser um manto de esperança esportiva.
Não se trata de alienação pura e simples, mas de uma necessidade humana de sobrevivência emocional. Em meio à crueza da realidade política, o brasileiro precisa de tréguas. Torcer pela seleção é um dos poucos momentos em que o país se autoriza a vibrar pela mesma coisa, sob a mesma bandeira, sem precisar justificar o lado do espectro político em que se encontra.
Se o resgate das cores começou como um movimento político, o futebol agora tenta devolvê-las ao povo em sua forma mais pura e lúdica. O amor à seleção está voltando, e com ele, a chance de tomarmos, juntos, um gole de leveza em meio ao caos.

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