A Crise do Afeto e a Coisificação do Sacro




Em um cenário religioso marcado por megaproduções, oratória performática e o uso estratégico de algoritmos para alavancar audiências, uma provocação essencial emerge sobre a verdadeira vocação das comunidades de fé: as pessoas estão sendo acolhidas ou apenas contabilizadas?
A pregação "Do que a multidão precisa?", do Pr. Osiel Gomes, traz uma crítica contundente ao modelo eclesial contemporâneo. O discurso aponta para um fenômeno doloroso, mas evidente: a transformação da igreja em um "ringue de ódio" ou em um balcão corporativo. Na era da métrica e do espetáculo, corre-se o risco de tratar seres humanos como meros produtos de mercado ou "troféus" para inflar relatórios.
O Perigo do "Evangelho de Mercado"
A lógica do consumo infelizmente invadiu o sagrado. Eventos mirabolantes, estruturas suntuosas e discursos inflamados prometem preencher o vazio existencial, mas frequentemente falham no mais básico: o relacionamento interpessoal. Nem as melhores programações, nem os louvores mais elaborados, nem os pregadores de grande projeção têm o poder de reter ou transformar vidas se não houver amor genuíno.
Quando o foco muda da cura da alma para o preenchimento de bancos, a comunidade perde sua essência. A multidão não busca mais um dogma rígido que impõe fardos pesados sem oferecer sustentáculo — uma dinâmica que o próprio texto bíblico relata ter afastado as pessoas da religiosidade de sua época. O que a multidão busca é o olhar de compaixão e misericórdia.
A Igreja como Refúgio, Não como Tribunal
Um dos pontos mais reflexivos abordados na mensagem é a postura de acolhimento irrestrito. Historicamente, o cristianismo se expandiu ao alcançar os marginalizados e rejeitados. No entanto, o ambiente religioso moderno muitas vezes se fecha em bolhas morais ou ideológicas, onde a hostilidade substitui o abraço.
​Se o espaço sagrado deixa de ser um hospital para feridos e se torna um tribunal de julgamentos, ele perde a razão de existir. O pecador, o diferente ou aquele que pensa de forma divergente deveriam encontrar no templo o lugar onde mais se sentem amados, e não o epicentro de uma disputa de egos.
O Resgate do Afeto e do Vínculo Humano
Nenhuma inovação tecnológica ou estratégia de marketing é capaz de substituir o "corpo a corpo", a escuta atenta e o cuidado individual. A verdadeira transformação espiritual ocorre quando o indivíduo é enxergado em sua singularidade e valorizado como um ser especial, não como uma engrenagem de manipulação de massas.

Diante do aumento do desinteresse pelas instituições religiosas e do crescimento do número de desigrejados, a resposta não reside em tornar os cultos mais midiáticos ou os discursos mais agressivos. A resposta está no resgate da empatia, da ternura e da humanização nas relações. Afinal, aquilo que a multidão desesperadamente precisa — ontem, hoje e sempre — não é de mais espetáculo, mas de mais amor.



J.L.

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