O SONHO DE SÔNIA CAÇA -RATO




Ela vivia em pagodes, bregas e outros esquemas de finais de semana. Tinha 19 anos, cabelos muito cacheados, um metro e 65, uma pelo de ébano, e tinha vontade de casar antes dos 25. Ia quase todos os finais de semana para baladas da zona norte de Recife, e sempre era arrastada para motéis da região. Nunca saía com mais de um por semana. Já havia perdido as contas de quantos finais de semana assim ela já havia tido. Seus conhecidos do bairro vai chamavam de Sônia Caça -rato. Era um nome dado a garotas "doideiras", que viviam bebendo e, às  vezes, se drogando pelas danças em geral. Viviam de modo irresponsável, e eram "fáceis" de se ganhar. Sônia, apesar de viver uma vida inconsequente, queria casar logo. Estava cansada de se sentir "usada" , de descer as ladeiras do Alto onde morava, no subúrbio da zona norte de Recife, em busca de aventuras nesses esquemas de final de semana.
Quase todo sábado e domingo era assim. Onde houvesse um barzinho com bregas, sertanejo, pagode, lá estava Sônia, "usando"  os homens e sendo "usada" por eles de todas as formas. Ela não pensava em nada quando estava ao redor de uma mesa, com suas amigas, tão "usadas"  quanto ela. Os rapazes faziam o possível para usufruir do corpo escultural de Sônia. Pagavam tudo. Ela, depois de uma cerveja, já não raciocinava direito. Ficava no ponto que os caras chamavam de "na medida", aceitava qualquer convite e qualquer conversa. Ficava disposta a viver a vida como ela é eles gostavam. Mas queria casar.
Num desses finais de semana, ela foi a um pagode no Alto do Mandu, em Casa Amarela. Era em um espaço perto da casa de uma amiga sua, Márcia Rabanete. Ela foi. 
Estavam comemorando o aniversário de Márcia, e ela havia chamado alguns colegas de seu trabalho, entre eles, um rapaz bem apessoado, branco, cabelos castanhos e com pinta de classe média alta. Era o engenheiro da empresa construtora onde Márcia, um mulherão, uma mulata lindíssima, trabalhava. O pagode girava em torno das músicas do grupo Raça Negra e sambas dos anos 80, dos quais Márcia era fã. Tinha umas quarenta pessoas no pagode.
Assim que o amigo de Márcia pos os olhos naquela negra linda que era Sônia, foi como se uma enchente de atração carnal e sentimental se apoderasse dele. Precisava falar com aquela garota. Nunca havia namorado uma garota negra antes. Talvez namorasse Sônia. Seus pensamentos ficaram cheios de novidades e imaginação. A forma como ela dançava não o deixava disfarçar as olhadas. Até que Sônia o notou. No intervalo do pagode , enquanto se servia da feijoada, ele a abordou, e começaram a se conhecer. O engenheiro não sabia de sua fama. Nem interessava. Ele não encontraria um mulherão daquele nunca. No condomínio onde morava as burguesas nem chegavam perto da beleza de Sônia. Queria ela de todo jeito!
Sentaram a uma mesa, ela, o engenheiro e Márcia, e a conversa rolou em torno de músicas, saídas, e a vida de Sônia e Márcia, seus interesses, trabalho, estudos, etc. Sônia estava ainda terminando o Ensino Médio.
Márcia sentiu um pouco de ciúmes, mas depois levou numa boa. O engenheiro a conheceu num sentido bem íntimo, e Márcia achou que Sônia seria "usada" também. Entrou no jogo, facilitando algumas coisa nos dois. 
Quando o grupo tocou a música "Cheia de Mania", do Raça Negra, Sônia chamou o engenheiro para dançarem. Foi a gota d'água. Aquela corpo negro, escultural, dançando aquela música, foi demais para o engenheiro. Fez de tudo para se conter, não queria que ficasse tão à vista seu "aborrecimento". Sônia dançou como ninguém. Ela não quis beber muito nesse dia. Só um copo de vinho Carreteiro. O engenheiro bebeu todas. Ficou bicado. Esboçou um beijo em Sônia, coisa que ela não esperava. Ela aceitou. Estava fisgada. 
Às seis horas em ponto, Márcia bateu o parabéns. Comeram bolo, salgadinhos, brigadeiros e muito mais, coisas que se comem em aniversários. Comeram  à vontade. Cada um levou um prato para casa, ao término da festa. A maioria foi embora a pé para casa. Márcia se despediu de Sônia e do engenheiro.  Ele Pegou Sônia pela cintura, deu um beijo em seu rosto, e seguiu no carro com ela, um BYD do ano. Foi levar Sônia em casa. Queria casar com aquela garota. Sabia que não era mais virgem. E daí? Já havia desvirginado muitas no seu condomínio. Ia enfrentar sua família, e aquela negra linda em todos os sentidos ia ser sua. Estava fisgado.




J.L.

Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

A Liberdade de Ensinar: Um Caso de Discriminação em São Paulo

IEADPE:TENTANDO ENTENDER A TRAGÉDIA

O Caso Flávio Bolsonaro e Vorcaro