ENTENDA COMO A IMPRESA TE ENGANOU NA PANDEMIA





A principal vocação do jornalismo sempre foi atuar como o quarto poder: um cão de guarda encarregado de fiscalizar os governantes, questionar narrativas hegemônicas e lançar luz sobre o que o Estado prefere manter na sombra. Contudo, em momentos de comoção coletiva, essa engrenagem costuma falhar. Durante a pandemia de COVID-19, testemunhou-se um fenômeno complexo e perigoso: em nome do combate ao vírus, parcela expressiva da grande imprensa abriu mão do ceticismo e trocou o escrutínio crítico pela adesão cega às diretrizes de governos e organismos internacionais.
​A gravidade do momento exigia responsabilidade, mas responsabilidade não é sinônimo de passividade. O problema central ocorreu quando a imprensa borrou a fronteira entre informar com base na ciência e chancelar qualquer decisão estatal sem questionamento.
​Exemplos dessa abdicação do papel analítico não faltam:
​Escolas fechadas por tempo prolongado: Enquanto diversos países europeus priorizaram a reabertura ou manutenção das salas de aula com base no baixo risco para crianças, grande parte da mídia brasileira e internacional defendeu o fechamento prolongado sem ponderar os impactos devastadores no aprendizado, na saúde mental e na desigualdade social.
​Incoerência nas regras de aglomeração: Manifestações políticas e grandes eventos alinhados a determinadas agendas eram frequentemente tolerados ou ignorados pela cobertura, enquanto pequenos comerciantes que tentavam manter suas portas abertas para sobreviver eram retratados como maus cidadãos.
​Mutações do "consenso científico": Orientações que mudavam radicalmente — desde o uso generalizado de máscaras (inicialmente desaconselhado e depois tornado obrigatório) até a eficácia do lockdown em conter a transmissão de variantes — eram divulgadas com o mesmo tom de "verdade absoluta e indiscutível" em cada fase, sem o devido resgate histórico das contradições anteriores.
​Cancelamento do debate legítimo: Questionamentos econômicos ou científicos feitos por epidemiologistas e economistas renomados sobre os custos de certas medidas foram, em muitos casos, empurrados para a vala comum da "desinformação" ou do "negacionismo", sufocando o contraditório sob um rótulo genérico.
​O combate a teorias conspiratórias e ao obscurantismo — ameaças reais e nocivas — não justificava a suspensão da dúvida metódica. O próprio método científico avança por meio de hipóteses, testes e refutações, e não por dogmas ou decretos de autoridades. Ao transformar comunicados governamentais em dogmas inquestionáveis, a imprensa enfraqueceu o debate público e, paradoxalmente, deu combustível para que a população perdesse a confiança nos veículos tradicionais de comunicação.
​É justamente durante as crises de excepcionalidade que o rigor investigativo se faz mais urgente. Reavaliar a atuação da mídia nesse período não significa minimizar o sofrimento de milhões de famílias atingidas pela doença, mas reafirmar um princípio basilar da democracia: o jornalismo só cumpre sua função social quando mantém o compromisso com a verdade e a independência frente ao poder — não importa quem o ocupe, nem quão nobres pareçam suas intenções.


J.L.

Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

A Liberdade de Ensinar: Um Caso de Discriminação em São Paulo

IEADPE:TENTANDO ENTENDER A TRAGÉDIA

O Caso Flávio Bolsonaro e Vorcaro